Izaú Melo

Fundador e idealizador do blog, começou a postar em dezembro de 2007, passou seis meses sem postar e agora de volta

O Blog

O blog de textos poéticos que está caminhando para o seu quarto ano e já são mais de 100.000 acessos e 2.000 comentários.

Chalil Costa

Co-fundador e responsável direto pela sua realização, escreve periodicamente.

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Mediunidade em Busca de Equilíbrio 2


Com os retalhos antigos de Fernando Pessoa

Sou um velho a tecer uma colcha

Colcha velha de sentimentos novos

Para escapar do frio e da solidão dos mortos

Posso me sentir renascido a cada momento

Para a eterna novidade do Mundo...

Ontem estive feliz, hoje um sórdido taciturno.

Sei que te amo e isso ainda me dá um sentido

Creio no mundo, na esperança.

Como uma eterna flor,

Na última pétala um malmequer...

Apesar disso te amo,

E necessito constantemente te ver

Porque ver é bem mais que pensar

Teu corpo não foi feito para que eu pensasse nele

(Pensar é estar doente dos olhos)

Mas para admirá-lo e estar de acordo...

(agora que já não posso tocar)

Descubro que não tenho filosofia: tenho sentidos...

Se falo do que sinto por ti não é porque consigo entender,

Mas porque te amo, e amo-a por isso,

Porque quem ama nunca pensa por que ama,

Nem o que é amar...

Amar é a eterna inocência,

E a única inocência é não pensar...

Ao te perder sinto,

Já não ter mais alma. Doei-me a escuridão e ao silêncio,

Só sinto um vácuo imenso onde alma um dia tive...

Sou qualquer coisa de exterior,

Consciente apenas de já nada ser...

Pertenço agora à paródia e à crápula da noite

Sou só delas, encontro-me disperso.

Por cada grito de desespero, por cada pranto de dor.

Por cada pele lacerada pelas unhas

Tom de luz no amplo clarão da penumbra.

Participo agora da névoa luminosa

Da orgia e da falsa alegria do prazer distante de ti.

E uma febre e um vácuo que há em mim

Confessam-me já morto... Palpo, em torno.

Da minha alma, os fragmentos do meu ser,

Com o hábito imortal de perscrutar-me.

Sem ti

Não sou, não sei, não tenho.

Apenas sinto a eterna falta de não sentir

Não mais, não mais, e desde que saí,

Desta prisão fechada que é a liberdade do mundo,

Meu coração é inerte e infecundo

E o que sou é um sonho que está triste.

Porque há em nós, por mais que consigamos

Ser nós mesmos a sós sem nostalgia,

Um desejo de termos companhia -

Que nunca será preenchida por um Amigo.

Sendo assim, melhor a chuva que a proteção de um abrigo

Mediunidade em Busca de Equilíbrio - Tributo a Fernando Pessoa!



Escrevo-lhe hoje por uma necessidade sentimental - uma ânsia aflita de falar contigo. Como de aqui se depreende, eu nada tenho a dizer-lhe. Só isto - que estou hoje no fundo de uma depressão sem fundo. O absurdo da frase falará por mim.
Estou num daqueles dias em que nunca tive futuro. Há só um presente imóvel com um muro de angústia em torno de mim. A margem de lá do rio nunca, enquanto é a de lá, é a de cá; e é esta a razão íntima de todo o meu sofrimento. Há barcos para muitos portos, mas nenhum para a vida não doer, nem há desembarque onde se esqueça. Queria estar do teu lado, mas os ventos da vida me afastam de ti. Tudo isto aconteceu há pouco tempo, mas a minha mágoa é mais antiga.
Em dias da alma como hoje eu sinto bem, em toda a minha consciência do meu corpo, que sou a criança triste em quem a vida bateu. Puseram-me a um canto de onde se ouve brincar. Sinto nas mãos a liberdade que me destes por uma ironia de lata. Hoje, dia dezesseis de agosto, às três e meia da madrugada, a minha vida sabe a valer isto. Bem menos que o nada.
Pouco mais ou menos isto, mas sem estilo, é o meu estado de alma, neste momento. Como à vela do "Marinheiro" ardem-me os olhos, de ter pensado em chorar. Dói-me a vida aos poucos, tomá-la aos goles, viver de brechas. Tudo isto está impresso em tipo muito pequeno num livro com a brochura sem sentido, quer ler? O faça num espelho.
Como sou EU quem escreve, preciso jurar que esta carta é sincera e que tudo que há nela são sentimentos verdadeiros, afinal jura-se apenas para quem duvida. Mas você sentirá bem que esta tragédia irrepresentável é de uma realidade de chá em xícara, de aqui e de agora, e passando-se na minha alma como o verde nas folhas e o azul do céu.
Foi por isto que o Rei não reinou. Esta frase é inteiramente absurda. Mas neste momento sinto que as frases absurdas dão uma grande vontade de chorar.
Te amo! Se não acreditas! Tentes ao menos imaginar!