Metade de janeiro
E já engavetei metade dos planos que fiz para o ano
Academia ficou pra próxima semana
Estudar ficou para o próximo mês
Economizar para o próximo semestre
Percebo que um dos meus hobbies prediletos é matar sonhos
precocemente
Cara ou coroa?
Preguiça ou covardia?
Não sei, só sei que puxei o freio de mão da minha
ambição...
Mas me sinto bem assim...
Não dei presentes de natal
Não enviei torpedos de feliz ano novo
E nem desejei feliz aniversário no mural de alguém
Doses homeopáticas de egoísmo não fazem mal a ninguém
Não se colhe felicidade plantando apenas no jardim dos
outros
Assim como comprar livros de autoajuda só ajuda na
felicidade dos autores
Queremos tanto conhecer os outros que, esquecemos de nos
conhecer
Para ficar mais forte eu tive que beber muitos goles das
tempestades alheias
Tive que aprender a construir muralhas para me defender
Mas também saber a hora de sair de dentro delas para
olhar o horizonte distante e tomar banho de sol
Filtrar emoções, ter os ouvidos atentos para saber ouvir
o silencio.
Renunciar algumas vontades e sufocar alguns desejos... até
a morte ou a sua sonolência...
Então, de repente, sem pretender, respiro fundo e percebo
que viver é bom.
Mesmo que as partidas doam horrores
Que mesmo preparado sempre é difícil ouvir um não
Estou aprendendo a lidar com a sazonalidade dos meus
sentimentos
Tendo que adotar sempre uma nova maneira de agir e de
pensar
Içando velas ou a recolhendo de acordo com o vento
Se dói, daqui a pouco talvez não doa mais
Descobri que felicidade não é a ausência dos problemas
Mas a sabedoria em lidar com eles da melhor maneira
possível
Da vida, eu já nem quero muito.
Quero apenas saber que tentei tudo o que quis
Tive tudo o que pude
Amei tudo o que acreditei que valia a pena amar
E que perdi apenas o que, no fundo, nunca foi meu...
Metade de janeiro já foi e levou alguns planos
A outra metade vai passar, por favor, faça as malas antes
de partir...
Izaú Melo
